Opinião

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A CAMINHO DE UMA NOVA SERVIDÃO

Publicámos ainda há pouco, neste mesmo espaço, uma breve reflexão sobre os constrangimentos de atraso social, cívico e económico impostos pela ausência de uma verdadeira cultura científica na consciência colectiva de uma nação – a nossa, Portuguesa. Também dissemos, então, o que entendíamos por cultura científica: uma forma mental, não um acervo de conteúdos; uma mundividência, não uma competência técnica; uma perspectiva racional, prudentemente céptica, sobre problemas humanos e naturais e não um afã de eficácia sobre questões produtivas sectoriais. Agora, a segunda parte da nossa reflexão: como disseminar, com solidez, este instrumento necessário ao desenvolvimento social e, afirmamo-lo, com segurança, à felicidade pessoal?

Três instituições mantêm simbolicamente o seu estatuto de potenciais núcleos formadores: a família, o sistema mediático e a Escola. A primeira, se funcional, está vocacionada para os afectos; a segunda para o entretenimento e para o efémero. Resta a Escola.

RankingResta? Talvez não, assumamo-lo já com ponderação realista. A Escola pública portuguesa, só para nos reportarmos aos últimos 100 anos, nunca foi boa. A República radicalizou-a com o instrumento de propaganda positivista que colidia acintosamente com uma sociedade pobre, conservadora e predominantemente rural; o Estado Novo inverteu-a para veículo de uma mitologia nacional indisputável ou, na melhor das hipóteses, para um centro de instrução pública assente na transmissão bolorenta e na aquisição apática de conteúdos por cinco décadas não revistos; a Revolução fez dela uma festa a caminho de um igualitarismo arbitrário pretensamente arauto do fim da Escola como agente de reprodução social; a consolidação democrática, em contexto agressivo de globalização e pulverização axiológica, não teve alternativa, não pôde optar – o paraíso perdido de uma ideia de Escola como centro cultural e científico cedeu à realidade da Escola enquanto agência de integração e serviço social/comunitário. Por muito que custe aos professores portugueses em particular e aos europeus em geral (queixando-se recorrentemente da degradação progressiva da qualidade de ensino) não podia a Escola pública trilhar outro caminho numa realidade de mercado de trabalho esgotado, libertação explosiva de costumes e mentalidades e relativização de todos os tipos de autoridade pública ou privada. À Escola pública não foi dado, nem podia ter sido dado, outro rumo senão a sua requalificação em instituição de amortização e controle de danos sociais. As questões do desemprego docente e da retracção demográfica sublinharam ainda mais esta nova mas prevista condição do sistema público de educação e a Escola vai-se redefinindo como centro vocacional e cada vez menos como espaço científico-cultural.

O ensino particular de qualidade, porém, escapa naturalmente a esta mutação. Com uma luxuosa possibilidade de selecção e um invejável aparato logístico e pedagógico não faz favor em liderar os rankings escolares. Não está, por isso, comprometida a capacidade futura de liderança das novas gerações, ao contrário das muitas previsões angustiadas dos mais distraídos. O país, a Europa e o mundo continuarão governáveis. O que aumentará é o abismo, desde sempre existente, entre as elites a massa. Aumentará exponencialmente e fixará uma nova servidão sem tirania política, assente apenas na oposição entre os que dominam conceptualmente o mundo e aqueles que nem um conceito conseguem definir. É a pior servidão de todas: é que se a revolta contra o despotismo político é sempre moralmente justificável, a da ignorância contra o conhecimento é, por essência, simplesmente impossível. Razão pela qual este novo tipo de escravatura se perpetuará.

Mário Rui Dias